A política educacional diz
respeito ao processo de decisões políticas que o Poder Público, isto é, o
Estado, toma em relação à educação, entendendo aqui o Estado não como um espaço
neutro onde os diferentes grupos sociais negociam em condições igualitárias
seus interesses, mas sim, conforme o texto “Impactos da Globalização nas
Políticas Públicas em Educação”, um “campo de batalha onde as diferentes
frações da burguesia e certos interesses do grupo no poder se defrontam e se
conciliam com certos interesses das classes dominadas”, ou, ainda, um “pacto de
dominação entre as classes dominantes”.
Desta
forma, uma política educacional é sempre resultado da correlação das forças
políticas, sociais e econômicas atuantes em um dado cenário e envolve as relações de poder que estruturam uma
sociedade. Ela contém em si, pois, um projeto de sociedade que, por sua
vez, depende
das forças que detém o controle do aparelho institucional. No caso do Brasil
atual, percebemos que as camadas (elitizadas) mais conservadoras da sociedade
vêm ganhando cada vez mais espaço no que se refere à determinação das
diretrizes educacionais, colocando em pauta projetos de lei que, por exemplo,
proíbem a abordagem das questões de gênero nas escolas e criminalizam o que
esses grupos entendem como “doutrinação” por parte dos professores,
notoriamente os de esquerda. Essas elites conservadoras defendem uma educação
“neutra” e de preparação para o trabalho em que o professor deixa de ser um
educador para ser um mero instrutor de conteúdos pré-fixados. Evidentemente, há
também resistência por parte dos grupos mais progressistas em relação a tais iniciativas.
Uma política
educacional precisa ter, ainda, uma base
filosófica de educação, isto é, princípios gerais que devem ser levados em
conta na organização do sistema educacional. Um exemplo é a influência que o
movimento conhecido como Escola Nova teve sobre a política educacional
brasileira a partir da década de 1930, e que até hoje segue fundamentando
políticas e práticas que reforçam uma visão da escola como redentora da
sociedade. Esse movimento apresentou-se, segundo análise de António Nóvoa, como
crítico ao modelo tradicional de escola, sem, contudo, colocar em causa o que o
autor chama de “gramática do ensino”, que se refere às concepções de escola
cristalizadas no imaginário coletivo.
Um
aparato legal é outro elemento
fundamental para a estruturação de uma política educacional. Em uma sociedade
globalizada, esse aparato ultrapassa os limites do Estado nacional e envolve
uma variedade de organismos internacionais que possuem grande poder de
influência. No Brasil, esse poder é ampliado, pois os princípios e conceitos contidos
na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) são
amplamente passíveis de interpretação. Dessa maneira, são frequentemente
normatizados por atos administrativos (portarias e resoluções) que não são
leis, mas servem apenas para operacionalizar as leis constitucionais de acordo
com a oscilação do “jogo” das relações de poder. Um bom exemplo são os
“objetivos da educação”, que relacionam, ao mesmo tempo, “o pleno
desenvolvimento da pessoa”, “o preparo para o exercício da cidadania” e “a
qualificação para o trabalho”, sendo que tais objetivos podem, a depender a
interpretação que se faça, até mesmo se excluírem entre si.
Vale
lembrar ainda que, em um mundo globalizado e dominado pelo capitalismo
financeiro especulativo, os Estados nacionais perdem a cada dia sua (já antes
parca) capacidade de mediação da relação capital X sociedade. Esse imenso poder
já é conhecido por muitos teóricos como um “totalitarismo econômico”, pois tem
ditado importantes decisões políticas em todo o mundo unicamente sob a lógica
do mercado, inclusive na área da educação. No Brasil, temos sérias distorções,
por exemplo, no ensino privado, que na prática sobrevive do dinheiro público e que
possui, muitas vezes, maior representatividade nos Conselhos de Educação,
fazendo valer seus interesses. O debate sobre a privatização do ensino no país
também avança na mesma proporção que outras medidas que favorecem ao mercado em
detrimento da qualidade de vida da população, como a proletarização do
professor e a terceirização da mão de obra.
Portanto,
uma política educacional, na concepção do Grupo Visão Realista, se constrói sempre
a partir dos aspectos elencados acima e reflete, ao mesmo tempo, quase sempre de
maneira contraditória e conflituosa, a sociedade que se tem e a sociedade que
se deseja.
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